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  • Esteban Ferrari

Felicidade no Trabalho

Atualizado: Mai 29

Recentemente, uma cliente de coaching de carreira lamentava-se que sua família e amigos estavam dando trabalho. Nos últimos dias, tinha gasto boa parte do seu tempo tentando tranquilizá-los e explicando que fazia o coaching somente para se conhecer melhor e explorar possíveis novas carreiras e que não pretendia fazer nenhuma “maluquice”. Sua mãe, preocupada com seu futuro, argumentava: “Minha filha. Você tem um trabalho ótimo. Não deveria se preocupar tanto com isso. O trabalho é só uma parte de nossa vida e você não deveria dar tanta importância a ele”. Pela lógica da mãe, a filha deveria buscar ser feliz fora do trabalho e se resignar às mazelas do mundo corporativo. Herminia Ibarra, professora do Insead e uma das mais respeitadas estudiosas de transições de carreira, defende que as pessoas mais próximas são geralmente aquelas que mais atrapalham aqueles que pretendem mudar de carreira. A atitude dos amigos e da mãe desta cliente confirma a hipótese de Ibarra. No entanto, a colocação feita pela mãe deu margem a uma interessante discussão que se seguiu naquela tarde. Afinal de contas, dá para ser feliz no trabalho?

A preocupação com a felicidade não é uma novidade. Os gregos antigos Sócrates, Platão e Aristóteles já filosofavam sobre este assunto há séculos. Para eles, a felicidade estava ligada a um estado de espírito e a uma vida devotada ao estudo das artes e da filosofia. O trabalho não fazia parte da fórmula da felicidade dos gregos, sendo ele totalmente delegado aos escravos. Mas muitos anos se passaram e o trabalho ganhou um papel central na vida das pessoas e, ao menos para a maioria de nós, não tem mais como ser terceirizado. Com isso, a busca da felicidade no trabalho ganhou maior relevância e não pode ser ignorada.

Acredito que a resposta para o eterno conflito entre trabalho e felicidade seja um tanto complexa, e que, para tentar compreender esse conflito, temos que nos fazer antes duas perguntas. A primeira pergunta é: será que o trabalho é um lugar para ser feliz?


Penso que existam dois tipos de pessoas. Aquelas para quem o trabalho é um meio para sustentar a felicidade fora do trabalho e aquelas que gostariam de ser feliz também no trabalho. Quanto ao primeiro tipo, lembro-me de um amigo da minha turma de engenharia que, assim que terminou a faculdade, passou em um concurso para um cargo público. Sua rotina baseava-se em fazer horas extras de segunda a quinta-feira para cumprir sua cota semanal de trabalho e descer para o litoral na sexta-feira para fazer o que mais lhe dava prazer na vida: surfar. Passava três dias surfando e voltava na segunda-feira de manhã à rotina do trabalho. Ele não via nada de especial no trabalho que fazia. Também sabia que não teria uma carreira promissora no serviço público, mas isso não lhe incomodava. Não tinha a pretensão de se tornar presidente de nenhuma empresa.

Quanto ao segundo tipo, me vem à mente um amigo que abriu mão de um cargo executivo em uma grande empresa de internet para tornar-se palhaço. Justificava a mudança dizendo que a internet o havia afastado das pessoas e que sentia necessidade de voltar a se relacionar com os outros sem a interferência de uma tela de computador.

A diferença básica entre os dois está no significado que atribuem ao trabalho. Para o primeiro o trabalho é fonte de segurança, estabilidade e equilíbrio – a recompensa, ou seja, a felicidade, está fora dele. Para o segundo, o trabalho é fonte de realização e satisfação pessoal, um meio para expressar seus talentos, ou seja, é a própria felicidade. E se acreditarmos que satisfação e realização no trabalho significam felicidade, então o trabalho pode ser um lugar para ser feliz. E isto nos leva à segunda questão. O que afinal é felicidade?


Creio que muitas pessoas confundem a palavra “felicidade”, quando relacionado ao trabalho, com outras duas: satisfação e realização. O conceito de felicidade é subjetivo. Cada um tem sua própria interpretação para ela. Muitos dizem estar infelizes no trabalho, mas acredito que estão na verdade insatisfeitos, pois não encontram realização no trabalho. Considero, no entanto, que felicidade, satisfação e realização são coisas diferentes. E, neste sentido, tendo a concordar com Pedro Bendassoli, doutor em Psicologia Social pela USP e professor da FGV, que acredita que “as organizações não são lugares para se encontrar a felicidade. Enquanto instituições, são conservadoras: não podem oferecer mais do que um contrato de troca”. Se não oferecem felicidade, podem, entretanto, oferecer espaço para que as pessoas utilizem plenamente seus talentos, gerando assim, realização do seu potencial e, com isso, satisfação. Se combinarmos a isso muita criatividade e espontaneidade, o trabalho pode até mesmo tornar-se divertido.


Portanto, arrisco dizer que ser feliz ou não no trabalho depende essencialmente do significado que atribuímos a ele e daquilo que entendemos por felicidade, o que reforça a importância do autoconhecimento nos processos de aconselhamento de carreira.

Ah, em tempo! Minha coachee continua seu processo de autoconhecimento e está muito feliz.

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